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O Mundo Não Vai Acabar em 2012

Autor Gilberto Schoereder
14/09/2013

Você acha que as tais profecias maias serão cumpridas?

Foto: Jeferson Rodrigues.


O Mundo Não vai Acabar em 2012

Você está esperando o fim do mundo em 2012? Você acha que as tais profecias maias serão cumpridas? Então, apresentamos aqui algumas reflexões sobre o tema que talvez ajudem a formar sua opinião.

Gilberto Schoereder

 

 
Foto: Jeferson Rodrigues.
 

Assim como existe o “novo-rico”, existe também o “novo fim do mundo”. O ano de 2012 é a bola da vez, certamente não porque se trate de um fim de mundo mais provável ou mais desastroso do que os anteriores, mas porque é mais próximo. Está praticamente à nossa porta, antes mesmo da apocalíptica Copa do Mundo no Brasil. Se alguém propusesse ou profetizasse um final dos tempos em, digamos, 3052, ninguém ia ligar a mínima. Talvez até dessem uma festa, como aquela ridícula rave de Matrix Reloaded.
E em tempos do “politicamente correto”, muitos conhecedores das profecias de plantão garantem que não se trata exatamente de um fim, mas sim de uma mudança, de uma transformação “novaerística”, uma metamorfose ambulante de coisas boas ou nem tanto, algo que irá dirigir nosso planeta tantas vezes aniquilado para uma nova etapa de existência, certamente melhor do que a atual, saindo do estado larval em que nos encontramos para um estado borboletal, ou coisa que o valha. Os “novos humanos”, convivendo em paz com o planeta.
E mais: 2012 é o chamado “apocalipse maia”, que era – ou é, porque ainda existem alguns, especialmente em Chiapas – um povo bem legal, às vezes misterioso, melhor do que nós, babacas poluidores do século 21.
Mas imaginar que uma transformação tão radical assim possa ocorrer em apenas três anos, é esperar demais de quem já fez tanto para destruir o ambiente. Teria que haver um evento grandioso, realmente fenomenal, que enchesse nossas cuecas e calcinhas de medo, que abalasse nossas obturações, que calasse o grito de gol em nossas gargantas e provocasse soluços que durassem uma semana. Assim, mortalmente feridos em nosso orgulho humano, envergonhados por sermos tão rasteiros, simples, tacanhos, preconceituosos e todas aquelas coisas ruins que marcam nossa personalidade de macacos mal adaptados, perceberíamos que o caminho que estamos seguindo não é o apropriado, não senhor, muito pelo contrário: estamos na senda errada, da autodestruição, das falsas ações nobres, dos mentirosos pensamentos elevados.
E então, daríamos uma guinada “de 360 graus”, como dizia o obtuso, e aí sim, encontraríamos a tão desejada felicidade global, o equilíbrio ecológico, a vida em paz conosco, com os demais tripulantes do planeta e com o dito cujo e sua tão decantada Natureza, com ene maíúsculo, para dar credibilidade.
Talvez voltássemos a viver em harmonia com os bichinhos, como no Jardim do Éden. Os tigres, sacando que não somos mais um problema para o planeta e para os animais, não nos comeriam com roupa e tudo e, emocionados ambos, andaríamos lado a lado pelos prados terrestres, ou pela jângal, no caso dos tigres.

E tem sido mais ou menos assim desde sempre, ou pelo menos desde que os seres humanos começaram a se amontoar uns nos outros, formando aquelas massas indecifráveis chamadas cidades – e vilas, aldeias, lugarejos, metrópoles, megalópoles: a quantidade de seres amontoados muda, mas as ações e o fedor continuam basicamente os mesmos, com diferenças de intensidade. Primeiro, o humano arrebenta, confunde, faz uma zona em torno de si, para depois imaginar o final de tudo.
No teatro grego, quando a coisa ficava preta e uma situação parecia sem saída, surgia o Deus Ex-Machina, que descia dos céus e resolvia a situação. Pura ironia, ainda mais saudável quando vinda da civilização que praticamente inventou, ou organizou, os deuses. Conosco, também descem deuses de vários tipos para solucionar situações extremas. Ou, em outras palavras, imagina-se o fim do mundo. Em linguagem chula diríamos: acaba logo com essa merda!
Seja em enxofre e fogo, seja em transformações aquarianas redentoras, o fim do mundo tem sido esperado constantemente desde que o ser humano usava fraldas e engatinhava nos pântanos da civilização.


Desde o primeiro século os cristãos esperam o Apocalipse (O Número da Besta É 666. Ilustração de William Blake).

Não sei se é a mais antiga, mas uma das primeiras visões de um fim do mundo registradas ocorreu entre os anos 30 e 60. Pessoas interpretaram o Novo Testamento de forma a entender que o reino de Deus, com a volta de Jesus Cristo, iria ocorrer imediatamente. O próprio Paulo de Tarso profetizou a volta de Cristo para o ano 60. Isso significava, é claro, o devido julgamento, fim dos tempos, etc. etc. No ano 90, São Clemente estava esperando o fim do mundo para qualquer momento, assim como Santo Hilário, por volta de 365.
A verdade é que eles queriam que tudo acabasse, talvez movidos por aquela culpa por tudo o que se pode imaginar, que persegue os cristãos e, em particular, os católicos, desde sempre. Os anos cheios sempre foram uma atração especial. Os cristãos esperavam o fim dos tempos no ano 500, comemorando cinco séculos da morte de Jesus. Foi o mesmo com o ano 1000 e, como vimos recentemente, com o ano 2000, erroneamente comemorado como a virada do milênio, quando se falou que um vírus eletrônico iria paralisar o planeta e iniciar o caos e, consequentemente, o fim dos tempos, de novo.

As profecias ou previsões sobre o final do mundo chegam a milhares. E, até onde podemos perceber, elas jamais se concretizaram. Ou então tudo acabou e nem nos demos conta. Fomos destruídos por algum apocalipse invisível, julgados em segredo, e estamos vivendo em nosso inferno particular. Porém, isso é outra paranoia ou enredo de uma boa história de ficção científica, à la Philip K. Dick.
Talvez o fim do mundo esteja chegando lentamente, com a constante degradação do meio ambiente, a poluição, as guerras intermináveis, as crises de saúde, o aquecimento global, a canalhice desenfreada, a negociação de jogadores brasileiros para o exterior e a consequente queda vertiginosa da qualidade de nossos campeonatos de futebol. Sei lá! Pode ser qualquer coisa. Enquanto isso, vamos levando.
Alguma interpretação psicológica da raça poderia argumentar que, lá no fundo, temos consciência de que estamos fazendo algo de errado e, assim, elaboramos finais de mundo para justificar a limpeza necessária, mas que jamais ocorre.
Desse ponto de vista, 2012 é apenas mais uma entre as milhares de datas propostas, mas que ganhou contornos mastodônticos devido aos novos meios de comunicação, à facilidade com que ideias circulam pelo planeta, por mais imbecis e sem sentido que sejam – e, senhoras e senhores, vamos ser honestos e tentar fazer uma avaliação imparcial: existem centenas de milhares de ideias sem o menor sentido circulando pela internet e em livros mambembes, publicados às pencas sempre que algum conceito começa a virar moda. Todo mundo aproveita para faturar uma graninha. O apocalipse maia pode ser apenas mais uma dessas situações. Se não for, me desculpem, e daqui a três anos nos encontramos no final do mundo.
E onde vocês vão estar nessa data?


Alguns esperam uma série de catástofres naturais em 2012, ou no fim dos tempos (Foto: Erupção no monte Redoubt, Alasca, em 1990. Autor: R. Clucas).

Praticamente tudo o que anda ou fica parado já foi analisado para se chegar a uma data do apocalipse – palavra, aliás, que significa “revelação”, seja lá qual for a implicação ou relevância dessa informação.
As informações dos cristãos quase sempre surgiram de interpretações da Bíblia ou de visões e sonhos. Muitas vezes, dizia-se que o Anticristo já estava entre nós e o nome do Inominável podia ser o de um desafeto da Igreja ou de algum religioso, até mesmo de um rei. Ou um rei poderia ser o escolhido para derrotá-lo, caso o rei fosse unha e carne com a Igreja e precisasse de um personal marketing para ficar legal com o povão – ou mesmo com inimigos que acreditassem no fim do mundo e no Anticristo.
A peste negra, que assolou a Ásia e a Europa entre 1347 e 1351, matando cerca de 75 milhões de pessoas – se confiarmos na prestação de contas –, também foi tida como o final de nosso delirante passeio de mãos dadas por Gaia.
Para o Islã, o Anticristo era cristão, e para os cristãos... Astrólogos liam nas estrelas e previam dilúvios ou fogo: o mundo ia acabar pela água ou pelo fogo, não se sabia muito bem. Talvez ventos fortes ou uma guerra. Ou tudo junto.
Quando o século 19 chegou, as previsões também começaram a estender-se, ou seja, previam-se datas específicas para a derrocada final dos pecadores – por exemplo, 13 de novembro de 1857, às 14h17, se não chover –, e como nada ocorria nessa data, os profetiotas determinavam um novo e, dessa vez vai, hecatômbico destroçar de nossas vidas impuras. E os crentiotas diziam “Sim, sim, dessa vez vamos nos arrebentar mesmo”, e batiam palmas e pulavam numa perna só e cuspiam no capeta por cima do ombro.
E continuamos por aqui.
Vejam bem... visões ou sonhos são muito, muito legais, mas não significam necessariamente a verdade final e absoluta. Eu mesmo já tive um sonho do tipo apocalíptico, com um final de civilização, epidemia e tudo mais. Sério. Rendeu até um roteiro para um livro, jamais escrito, com começo, meio e fim, elaborado no meio da noite, quando acordei do sonho, ou pesadelo. A diferença é que eu não saí pelas ruas rufando os tambores e arregimentando um séquito de desmiolados babões, dizendo que eu sabia exatamente o que iria acontecer dentro de x tempos. Fiquei na minha, que é o que eu acho que muitos humanoides poderiam fazer com mais frequência.
Mas não. Acham que a verdade sobre o futuro imperfeito que nos espera está escondido nas proporções das pirâmides do Egito ou da América; em livros sagrados de todo tipo; em folhas de chá; em cometas que se encontram em rota de colisão com a Terra; em alinhamentos planetários; em vulcões que estariam cada vez mais ativos (o que não é verdade); no mais recente tsunami, a primeira de muitas ondonas que limpariam o planeta; em extraterrestres que estariam chegando para nos “arrebatar” – entenda-se, levar para um planeta distantíssimo e perfeitinho, somente aqueles “escolhidos”, que seriam as pessoas que agem de acordo com o que o profeta em questão diz, e que pode ser qualquer coisa. E muito mais. É só procurar que acha. Parece não haver limite para a criatividade e imbecilidade dos terrestres.

No que diz respeito especificamente à data de 2012 e às supostas profecias dos antigos maias, um fato é que os especialistas na civilização maia – historiadores, arqueólogos, antropólogos, linguistas – afirmam que o “final dos tempos maia” é fruto de uma interpretação errônea do calendário maia, feita por aqueles que se enquadram no chamado “maianismo”, uma das inúmeras vertentes esotéricas – ou esoteroides, como dizem os mais equilibrados – surgidas na Nova Era e que baseia suas crenças, ou parte delas, na mitologia do antigo povo da América Central e do Norte.
Para essas pessoas, os maias teriam uma compreensão do mundo, de si mesmos e de sua relação com o planeta muito mais avançada do que a que temos hoje. No entanto, muitos estudiosos dos maias entendem que uma das razões para eles terem desaparecido como grande civilização foi o fato de terem esgotado seus recursos naturais. O que não é muito legal, não é mesmo? E é mais ou menos o que está ocorrendo hoje. É verdade que em proporções estupidificantes; mas essa é a nossa marca e legado.
Um dos temas do maianismo foi o calendário. Como ele supostamente termina em 2012, levantou-se o conceito de que os maias, que tudo sabiam, haviam predito o fim do mundo nessa data, em dezembro, segundo alguns. A história do calendário é complicada para quem não se dá bem com números, e os maias usavam a base-20 em vez da base decimal ocidental. O que os especialistas dizem é que o final do calendário implicava apenas que ele estava sendo zerado, para recomeçar.
Fala-se que muitas informações sobre o fim dos tempos maia teriam vindo do Chilam Balam, tido como um dos livros sagrados dos maias. No entanto, sabe-se que o Chilam Balam é uma aglutinação de tradições maias e europeias. Ou então teriam vindo dos famosos códices maias, os únicos documentos que sobreviveram ao massacre da Inquisição espanhola na América maia.
Também se diz que os especialistas autônomos sabem mais sobre a verdade a respeito dos maias do que os cientistas, mas aí já é forçar a barra demasiado. Se até hoje existem disputas sobre o real significado de palavras e expressões maias, que continuam sendo estudadas a fundo, é muita pretensão querer ter a verdade final sobre essa questão, especialmente se a pessoa não passou a vida inteira dedicando-se a ela, como é o caso de muitos desses cientistas.

Entre as centenas de livros publicados sobre o assunto, existe um, de Patrick Geryl, chamado Como Sobreviver a 2012. Não é uma pergunta, mas praticamente um manual do que deveremos fazer para sobreviver à inversão dos polos, que irá provocar alterações dramáticas no clima. Como outros autores, Geryl baseia-se no Códice de Dresden, mais exatamente na página 74, que faria referência ao fim do mundo no futuro. No entanto, estudiosos do Códice dizem que a placa pode estar dizendo que o mundo, um dia, foi destruído pela água. Nem os maiores estudiosos do mundo sabem exatamente o que significam os textos e ilustrações dos maias.
Peguei o nome do autor ao acaso, apenas para ilustrar o que estou querendo dizer. Muita coisa dos maias foi simplesmente destruída nas fogueiras da Inquisição, e os especialistas se debruçam sobre o que sobrou por mais de um século, tentando obter fragmentos da realidade aqui e ali.
Então, o que fazer? Como sobreviver a 2012? Esta sim, uma pergunta. Não é tão complicado. Não é preciso esperar que extraterrestres venham resolver o assunto para nós. O ET do filme do Spielberg, que nem é de verdade, já disse tudo: “Be good”.


O Castelo, em Chichen Itza, na Península do Iucatã, um dos principais centros dos maias antes da chegada dos espanhóis.

Se voltarmos ainda mais no tempo, milhares de anos, vamos achar coisas bem interessantes, uma delas dita por Cristo, ou pelo menos atribuída a ele: não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você. É básico, simples. Se a pessoa quiser, pode ter relação com religião; se não quiser, não precisa. Ser uma pessoa legal consigo e com os outros independe de credo, ou mesmo de ter ou não uma crença espiritual. É só não ferrar outras pessoas. Centenas de líderes religiosos e morais disseram coisas semelhantes antes e depois. É que não basta ler e recitar; não basta orar ou pagar o dízimo. É preciso praticar, e para isso a pessoa tem de acreditar que é assim mesmo que as coisas devem ser. Em outras palavras, uma pessoa desprezível não está nem aí, e assim são alguns seres humanos.
Estou tendo uma intuição, uma revelação, quase uma visão. Já posso até fazer uma profecia. E ela é: em 2012, o mundo não vai acabar. Não vai haver uma transformação radical em nossa sociedade, em nossos corações e mentes. Os canalhas não vão abracadabrar-se e virar pessoas com as quais gostaríamos de ir para a cama. Muçulmanos, judeus e cristãos não vão passar a se amar incondicionalmente e trocar beijinhos nas faces e passar a mão na bunda uns dos outros. Os preconceitos não vão desaparecer numa varetada mágica de fadinhas do bem.
Podem ocorrer catástrofes? Digo que sim, ou talvez não: depende das condições geológicas e climáticas em 2012. O famigerado aquecimento global vai, finalmente, derreter gelos e inundar cidades? Digo que não, ou talvez sim: vai depender das discussões que ocorrerem até lá, e mais, das medidas concretas que forem tomadas pelos governos.
É possível que o mundo acabe numa hecatombe nuclear? Acho que não, mas pode ser que sim. Afinal, desde 1945 espera-se por esse momento. Vocês hão de concordar que, hoje, o perigo é bem menor do que nos anos 1950 ou 60. Mas... sabe como é. O macacus sapiens é bem estúpido, de modo que sempre é possível uma explosãozinha aqui e outra ali dar início a uma situação incontrolável. Nós somos assim, abestados.
Não tem jeito. É perda de tempo ficar esperando o final que nunca vem, ou nunca veio. Então, relaxa e goza.
O mundo não vai acabar em 2012. E se eu estiver errado, me processem.


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