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A BÍBLIA DO DIABO

Autor Wanise Martinez
Publicado porGilberto Schoereder
07/12/2020

Criado no século 13, diz-se que o maior livro medieval foi redigido em apenas uma noite por um religioso. Só que, para isso, ele teve de pedir ajuda ao demônio.


Há 800 anos as regras da Igreja foram violadas. Um monge beneditino cometeu um crime gravíssimo e, como punição, foi condenado a ser emparedado vivo. Desesperado, e querendo livrar-se das acusações, ele propôs criar uma Bíblia em uma só noite. O que o monge nem imaginava é que talvez fosse impossível terminar essa tarefa. Ou melhor, quase impossível.
Para sua alegria, e a glória de seu monastério, a Bíblia prometida foi finalizada a tempo de salvá-lo. No entanto, para que o trabalho fosse concluído com sucesso, o ardiloso monge teria pedido ajuda a ninguém menos do que o mestre das trevas em pessoa: o próprio diabo.
Chamado oficialmente de Codex Gigas (livro gigante), esse manuscrito foi redigido no monastério beneditino de Podlazice – localizado 100 quilômetros a leste de Praga, na região da Boêmia, atual República Tcheca –, no início do século 13. Confeccionado inteiramente com a pele de 160 asnos, ele ficou conhecido pelo popular nome de Bíblia do Diabo porque uma de suas ilustrações seria a do demônio. Conta-se que a imagem foi colocada na obra pelo próprio monge, a fim de enaltecer a ajuda que obteve durante a noite definitiva.
Pesando 75 kg, o códice é considerado o maior livro medieval, com 92 centímetros de altura, 50,5 centímetros de largura e 22 centímetros de espessura. Com 624 páginas, que sobraram das 640 originais, ele é ricamente enfeitado em vermelho, azul, amarelo, verde e dourado. Além disso, sua parte exterior é toda trabalhada com adornos de metal.

                                                                                                               A ilustração do diabo, na página 290.

Guardada cuidadosamente em uma embalagem de madeira, a Bíblia do Diabo está toda em latim, em uma versão pré-Vulgata (a Vulgata é a tradução da Bíblia para o latim realizada por Jerônimo – São Jerônimo – no século 4). Seu conteúdo apresenta todo o Novo e o Velho Testamentos; vários tratados de história, etimologia e fisiologia; uma lista dos irmãos do monastério de Podlazice; a enciclopédia Etymologiae, do santo espanhol Isidoro de Sevilha (560-636), que foi teólogo, matemático e Doutor da Igreja; além da Chronica Boemorum, ou Crônica dos Tchecos, do religioso e historiador tcheco Cosmas de Praga (1045-1125).
O códice também traz a obra Antiquitates Judaicae (Antiguidades dos Judeus), escrita pelo historiador judeu Flávio Josefo (37-100), e alguns outros textos mais curtos. O primeiro deles, que aparece logo após o retrato de uma cidade celestial, fala sobre a penitência. O seguinte, ao lado da figura que aparentemente seria a do diabo, explica o exorcismo de espíritos maus. Já o último é um calendário contendo o nome de vários santos e os dias em que são comemorados. Segundo conta, as dezesseis folhas que faltam no manuscrito, e que possivelmente foram arrancadas, abordavam os preceitos e conhecimentos da vida monástica dos beneditinos.
Essa suposta representação do demônio está na página 290 da Bíblia. Nela, o diabo aparece sozinho, com os braços e pernas um pouco encolhidos. Tanto suas mãos quanto seus pés têm apenas quatro dedos, e ele está vestindo uma roupa de pele. Isso serviu para enfatizar ainda mais as especulações acerca da lenda, já que o demônio detém o título de príncipe das trevas e esse tipo de vestimenta é geralmente associado à realeza. Pelo que se sabe, a intenção era lembrar a visão do pecado e do mal, em oposição à página que representa o céu.

Abertura de O Evangelho Segundo Mateus.

A história do manuscrito, no entanto, não pára por aí. Durante o século 15, o monastério beneditino em que ele fora confeccionado foi destruído, e o livro parou num mosteiro cisterciano na região de Sedlec (os cistercianos formavam uma ordem de monges que viviam em clausura; também eram conhecidos como monges brancos). Pouco tempo depois, foi comprado por outro monastério na cidade de Brevnov e lá permaneceu até 1477. Após essa data, o livro foi para a biblioteca de um mosteiro em Broumov, onde ficou até 1593. Já no ano seguinte, foi adquirido pelo tesouro imperial em Praga para que fizesse parte das coleções do imperador Rodolfo II de Habsburgo.
Até 1648, o manuscrito continuou no Castelo de Praga. No entanto, após o final da Guerra dos Trinta Anos – que aconteceu entre 1618 e 1648 –, ele foi roubado pelas tropas do general sueco Konigsmark e levado como despojo de guerra. Muitos outros objetos da famosa Kunstkammer de Praga, que pertencia ao imperador Rodolfo II, foram levados (as kunstkammer eram “câmaras de maravilhas”, coleções de objetos que, na época, tinham categoria indefinida, incluindo objetos relacionados à geologia, história natural, religião e até objetos de arte).
Outro livro conhecido, o Codex Argenteus, que atualmente está em Uppsala, na Suécia, também foi levado pelas tropas. Criado por volta do ano 750, o Codex Argenteus foi inteiramente confeccionado com letras de ouro e de prata.
Dessa época até os dias de hoje, a Bíblia do Diabo ficou guardada na Biblioteca Real Sueca, em Estocolmo, como um dos maiores tesouros do país.
Em 2007, após 359 anos afastado, o manuscrito voltou à capital tcheca para ficar exposto junto de outros documentos relacionados à Idade Média. Transportado por um avião militar, ele ficou à mostra na biblioteca medieval de um antigo colégio jesuíta no centro velho de Praga e podia ser apreciado somente por 60 pessoas a cada hora. Desde que foi para a Biblioteca Real da Suécia, no século 17, a Bíblia do Diabo só tinha saído de lá por duas vezes. A primeira aconteceu em 1970, quando ela foi participar de uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York; a segunda ocorreu em outra ocasião especial em Berlim.
De acordo com Zdenek Uhlir, especialista em manuscritos medievais da Biblioteca Nacional de Praga, a confecção de uma obra desse porte, no século 13, poderia levar de 10 a 12 anos.

 

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