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O ENIGMA DOS OBJETOS QUE DESAPARECEM

Autor Alejandro Parra
Publicado porGilberto Schoereder
22/09/2013

Você já passou pela experiência de perder um objeto inexplicavelmente? E o objeto reaparecer tempos depois num local improvável? Então saiba que você não está sozinho.


O ENIGMA DOS OBJETOS QUE DESAPARECEM

Várias pessoas já passaram pela experiência estranha e, às vezes, irritante, de perder um objeto qualquer, inexplicavelmente, apenas para vê-lo reaparecer tempos depois em algum lugar improvável. A parapsicóloga Mary Rose Barrington chamou o fenômeno de JOTT e realizou uma ampla pesquisa sobre o tema.

Por Alejandro Parra
(Foto: Sanja Gjenero)
 

Você já teve a experiência de perder algo que, logo depois, reapareceu misteriosamente em algum lugar improvável, e que você não pode explicar como chegou até lá?
Se esse é seu caso, você não está sozinho. E não se preocupe; você não está sofrendo distrações demenciais, nem transtornos de memória. Tampouco insulte a si mesmo dizendo que é um idiota.
Você foi “jotleado”, segundo um anúncio na revista britânica The Paranormal Review, que procura testemunhos de pessoas que tiveram experiências curiosas, tão cotidianas e comuns que é difícil de se acreditar que estejam relacionadas com um legítimo evento “paranormal”.
Na verdade, a parapsicóloga e historiadora Mary Rose Barrington, atualmente vice-presidente da Society for Psychical Research, de Londres, introduziu uma nova terminação ao léxico parapsicológico, que obteve uma imensa repercussão. O verbo jottled provém da sigla JOTT (do inglês para “just one of those things”, “apenas uma dessas coisas”), que, segundo ela, descreve fenômenos raros, e até mesmo absurdos, impossíveis de se ajustar a qualquer modelo explicativo.
Vejamos uma experiência típica. Você volta do trabalho ou está prestes a sair de sua casa. Então, deixa o relógio (ou as chaves, óculos, documentos, cartão de crédito…) na mesinha de luz, como sempre faz. Vai tomar banho e, quando volta, o relógio desapareceu. Você até se lembra de como o relógio de pulso ficou na mesinha. Você estava sozinho, ninguém esteve ali antes. Mas como você precisa sair, deixa o problema para resolver depois. Ao retornar, “dá a volta à casa” procurando o relógio perdido. Quase prestes a desistir da vã tentativa de encontrá-lo, finalmente, você mesmo (ou seu marido, esposa ou filha) o encontra… na jaqueta que estava pendurada no armário, mas que você não usava havia muito tempo.
Como ele chegou ali? Certamente, você não é médium, psíquico ou mágico, mas definitivamente a experiência é mais comum do que você pode pensar.
Barrington reuniu e classificou numerosos casos de JOTTs. Existem dois tipos principais, sendo o mais frequente o que envolve deslocamentos de objetos, atribuído a algum tipo de teletransporte e até mesmo à ação de duendes, gnomos e outras entidades sobrenaturais.
Como quase todos os investigadores do paranormal, Mary Rose relata em primeira pessoa uma de suas próprias experiências: “Uma vez, viajando pela Escócia e Inglaterra, passei uma semana em Findhorn, onde comprei um anel celta de prata, em forma de nó, que coloquei no meu dedo direito. Estava justo, mas não apertava e tampouco saía com facilidade. Voltei a Londres, onde estava hospedada na casa de uns amigos, e vários dias depois fui a Paris para conhecer Tom, o homem que, mais tarde, seria meu marido (agora estamos divorciados). Nos conhecíamos a cerca de seis meses e eu ‘sabia’ que iríamos nos casar, ainda que nunca tivéssemos falado sobre o assunto antes. Quando voltei a Londres, dias depois, encontrei o anel sobre a cômoda em minha casa. Disse a minha amiga que, aparentementem eu o havia perdido, e ela me disse que o tinha encontrado no chão, no meio da casa, pouco depois que eu tinha ido.

 

Atualmente, a parapsicóloga e historiadora Mary Rose Barrington é vice-presidente da Society for Psychical Research.

“De volta aos Estados Unidos, Tom e eu fomos à feira estatam de Maryland, numa tarde. Eu tinha colocado o anel, mas, mais uma vez, de repente percebi que tinha desaparecido. Insisti em voltar o caminho, passando pelos corredores cheio de serragem onde estavam as ovelhas. Certamente, não o encontrei e me resignei; no final das contas, eu o tinha perdido. Quando cheguei em casa, o anel caiu da dobra do meu jeans. Concluí que simplesmente tinha caído na minha cinta sem que eu percebesse, porque enquanto estávamos na feira – depois de perceber que o anel tinha desaparecido – tinha revistado toda minha roupa procurando-o. Também tinha caminhado pelos arredores durante horas, depois do anel ter desaparecido. Desde então, não tive mais qualquer contratempo com o anel. As desaparições misteriosas mostraram ser um quebra-cabeças para o qual nunca tive qualquer explicação.

 

Será que os JOTTs são teletransportados? A teleportação é o desaparecimento de um objeto de um local e seu reaparecimento em outro, como quando um objeto se dissolve e logo reaparece em outro ponto. O teletransporte (ou teleportação) é um dispositivo bastante conhecido na ficção científica; por exemplo, é a tecnologia utilizada na famosa série de TV, Jornada nas Estrelas. Mas o teletransporte é impossível do ponto de vista da física quântica. Os cientistas especializados não levaram seriamente em conta o tema porque se acredita que viola o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Tecnicamente falando, o teletransporte é a reconstrução de uma cópia exata de um objeto original. Porém, segundo o Princípio da Incerteza, o ato de observar ou medir um objeto perturba o próprio objeto, e impede a possibilidade de uma réplica perfeita; ocorre o que os cientistas quânticos chamam de “colapso”. Em 1993, os cientistas demonstraram que o teletransporte perfeito é possível em princípio, mas apenas se o original for destruído.
Contudo, tudo isso mudou há poucos anos. Em 1997, cientistas na Áustria e Dinamarca anunciaram que tinham teletransportado fótons com êxito, sem destruir os originais. Outro grande avanço ocorreu em 1998, quando físico do California Institute of Technology (CIT) anunciaram o primeiro teletransporte quântico com alto grau de fidelidade. A equipe do CIT teletransportou luz “condensada” a um metro de distância. Logo, em junho de 2002, cientistas australianos teletransportaram com êxito um raio laser.
Esses avanços têm tremendas implicações para as novas tecnologias das telecomunicações, mas no entanto ninguém sabe como aplicar o teletransporte a materiais que têm massa (os fótons não têm massa). Contudo, provavelmente é apenas questão de tempo para que possamos dar o “salto quântico” e se converta em realidade a possibilidade de um teletransporte controlado.
“No entanto, temos os fenômenos como os JOTTs”, diz Mary Rose Barrington, “que parecem ser os casos de teletransporte que desafiam toda explicação”. Consideremos, por exemplo, os aportes, da mediunidade de efeitos físicos, sobretudo aqueles médiuns que brilharam a partir do final do século 19. Os aportes são objetos supostamente materializados ou transportados a lugares distantes pela intervenção de espíritos. Existem muitos relatos na antiga literatura espírita a respeito de estranhos objetos produzidos em séances (sessões), incluindo animais vivos e flores frescas. Mais recentemente, personagens como Sai Baba, na Índia, tornaram-se famosos por seus aportes e materializações. Sai Baba disse que ele mesmo teletransporta alguns objetos a grandes distâncias. E alguns casos de poltergeist também envolvem aportes; Na literatura religiosa existe o teletransporte milagroso, chamado “transporte milagroso”, no qual um santo parece viajar instantaneamente de um lugar a outro.

 

O teletransporte é conhecido nos livros e filmes de ficção científica - como no popular Jornada nas Estrelas -, mas deixou de ser apenas ficção a partir das experiências realizadas em 1997.(Foto: Paramount)


“Será possível que algum tipo de teletransporte ocorra além das leis conhecidas pela ciência, e não sejamos capazes de saber o que se passa?”, questiona Barrington, sugerindo: “Penso que nosso estado emocional é um fator importante, algo que está em jogo com os JOTTs. A intensidade da emoção pode exercer uma força que, de algum modo, interage com as propriedades do tempo e espaço”; algo como uma psicocinese emocional. “Por exemplo”, ela prossegue, “eu não tinha muito apego a meu anel quando ele desapareceu. Mas naquele momento, estava em estado alterado pelo impacto emocional de minha relação com Tom. A pergunta é: por que este anel em particular? Não era o único que usava; talvez tenha carregado nele algo de minha intensa energia emocional quando o comprei. Enquanto estava em Findhorn, eu esperava ansiosamente meu encontro romântico com Tom”.

 

TIPOS DE JOTTs

Segundo Mary Rose Barrington, existem classes diferentes de JOTTs. Vejamos algumas:
Passeador: um objeto desaparece de um lugar conhecido e é logo encontrado em outro local, sem explicação de como chegou lá;
Retornador: é uma variante da anterior. Um objeto desaparece de um lugar conhecido e em seguida – às vezes minutos, ou talvez anos depois – reaparece misteriosamente no mesmo local;
Voador: um objeto desaparece de um lugar conhecido e nunca reaparece. O JOTT voador pode ser a etapa 1 de um JOTT passeador, com um período de desaparecimento excepcionalmente longo;
Aparecido: um objeto conhecido de um observador, mas que estava em outro lugar, é encontrado no local em que costumava estar anteriormente. Parece ser a etapa 2 de um JOTT passeador.

 

PESQUISA NA ARGENTINA

O psicólogo argentino Alejandro Parra formulou a seguinte pergunta a um grupo de 560 estudantes de psicologia: “Você já teve a experiência de ter deixado um objeto (por exemplo, um chaveiro ou um relógio) em determinado lugar e, quando foi pegá-lo, não o encontrou? Mas, tempos depois, o encontra no mesmo lugar em que o tinha deixado, apesar de ter procurado nesse local várias vezes antes?”
Os resultados mostraram que 46% respondia que tinham tido JOTTs várias vezes; que as mulheres tinham mais experiências de JOTTs que os homens (11% contra 9%); e que quase a metade (47%) considerava as experiências “explicáveis”, ainda que a outra metade as considerasse “inexplicáveis”. Apenas 5% considerou uma interpretação “paranormal” como a única possível.

Barrington relatou essa história e sua investigação dos JOTTs ao conhecido psíquico Alan Vaughan, que chegou à mesma conclusão de que essa emoção intensa pode ter sido um ingrediente importante em sua experiência. Certa excitação emocional é parte do ritual mágico, que implica na projeção de uma energia mental que permite manifestar algo no domínio da física. Em alguns casos de JOTTs, um grande desgosto ou frustração a respeito de uma perda pode influir no retorno do objeto “extraviado”. Existem também outros estados que podem afetar a ocorrência de JOTTs; as pessoas que passam muito tempo em atividades criativas, de cura e meditação, podem ser mais propensas a ter essas experiências.
“Desagradáveis, exasperantes e misteriosos, são adjetivos aplicáveis às muitas ocasiões em que os objetos desaparecem à nossa volta”, diz Barrington. O parapsicólogo australiano Michael Thalbourne referiu-se a esses fenômenos, e até o conhecido investigador de poltergeists na Inglaterra, o dr. Maurice Grosse, teve experiências semelhantes.

O dr. Maurice Grosse, investigador do fenômeno poltergeist, encontrou vários tipos de JOTTs ao longo de seus estudos na Inglaterra.


Alguns dos casos coletados por Thalbourne são, no mínimo, surpreendentes. Por exemplo, Rod T. relata a seguinte experiência: “Há anos, vivia numa pequena casa com rodas, próximo ao motel no qual trabalhava. Uma noite, tive que sair para buscar algo do armazém, procurei minha carteira e não a encontrava. Revistei a casa por quase uma hora, verificando inclusive os armários da cozinha. Quase entrei em pânico, e com razão; meu salário das próximas duas semanas estavam naquela carteira, e tinha desaparecido. Eu sabia que estava comigo, na casa, então parecia demais sair para procurá-la. De qualquer modo, foi o que fiz. Voltei para dentro e comecei a procurá-la outra vez. Revi na sala de estar e voltei à cozinha. Voltei à pequena sala de estar e ao olhar para a cozinha, vi minha carteira no chão, em frente à geladeira. Fiquei pasmo. De forma alguma poderia ter deixado de ver a carteira colocada ali; foi a primeira coisa que meus olhos viram ao voltar à cozinha”.
“Nos últimos anos, meus óculos, minhas chaves e dois livros desapareceram em minha casa e apareceram em lugares pouco comuns”, relata outro dos casos de Barrington, Amy S. “Quando tiro os óculos”, ela relata, “geralmente ponho ao lado do computador, mas uma vez, quando voltei para pegá-los, tinham desaparecido. Encontrei-os dias depois em cima do refrigerador. Eu costumava atribuir esses desaparecimentos às travessuras do meu filho de 14 anos, mas agora já não estou tão certa. Além do que, ele jura por tudo que nunca tocou nessas coisas”.
E, finalmente, essas são duas estranhas experiências de Martha G. “Uma vez”, ela narra, “há cerca de oito anos, peguei meu cachorro e fui ao armazém. Eu vivo só, de modo que estou certa de que coloquei as chaves de casa no bolsinho de minha jaqueta. Quando voltava, não pude mais encontrar as chaves. Por sorte, tinha um jogo extra, escondido fora da casa, de modo que pude entrar. Procurei por tudo, buscando as chaves, mas não as encontrei. Até mesmo refiz meus passos até o armazém, olhando para o chão a cada passo, e entrei no armazém novamente, mas ninguém tinha as chaves. Dois dias depois, as chaves reapareceram sobre a mesa de café. Certamente era um local onde eu havia procurado antes. Em outra ocasião, eu tinha uma peça de azutira, que usava em minhas meditações. Não pude encontrá-la por algum tempo. Mas uma vez, quando estava voltando para casa, ela estava no chão, bem em frente à porta. Não me lembro quantos dias esteve desaparecida, mas foram vários”.

Em outro relato, José María T. diz que “o incidente seguinte tem a ver com nosso costume de passear com o cachorro aos domingos à tarde. Ao chegarmos a um bosque próximo, mudamos nossos sapatos por botas de chuva, deixando os sapatos dentro do porta-malas. Mas ao voltar ao carro decidimos que, como as botas estavam bem limpas, não trocaríamos até chegar em casa. Lá, com o carro estacionado na garagem, ao abrir o porta-malas não encontramos nenhum sinal dos sapatos de minha esposa, e não tivemos êxito na busca. Na manhã seguinte entrei na garagem pela porta lateral, e ali, colocados caprichosamente um ao lado do outro sobre o capô do carro, estavam os sapatos perdidos”.
“Meses depois, um CD de uma coleção de CDs guardados num caixote do meu escritório tinha desaparecido. Cinco meses depois, ainda não tinha sinal dele.Talvez estivesse em algum lugar da minha estante? A experiência mais recente ocorreu no início de dezembro de 2007, quando minha esposa foi à cômoda buscar nossa lista de cartões de Natal guardados na caixa habitual, mas que não estavam em lugar nenhum. Então, tendo perdido tempo procurando em três caixas sem qualquer resultado, começamos novamente do zero, preparando todos os envelopes à mão. Em seguida, no início de janeiro, fui até a cômoda e ali, bem em cima, estava a pasta perdida. Agora, estou começando a me perguntar se minha carteira ou a de minha esposa estão seguras. E como explico a uma companhia de seguros a perda de minhas coisas?”

Um JOTT pode ser interpretado como uma experiência de alucinação “negativa”? Essa experiência parece que se debe a uma falha na percepção do objeto. Diferente da alucinação – na qual o indivíduo percebe um objeto que não existe na realidade objetiva – a alucinação negativa consiste em uma “cegueira” de um objeto presente.
O psiquiatra britânico Charles McCreery sustenta que “o objeto está realmente presente, mas o indivíduo não tem consciência dele”. O neurologista francês Hippolyte Bernheim (1840-1919) foi o primeiro a destacar esse curioso fenômeno, ao qual designou como “a falta de percepção de um objeto presente no campo do sujeito”. Até mesmo, depois de uma sessão de hipnose (ordem pós-hipnótica), certos fenômenos hipnóticos incluem alucinações “negativas”.

O psiquiatra Charles McCreery sustenta que o objeto está realmente presente, mas o indivíduo não tem consciência dele. Esse fenômeno é conhecido como alucinação “negativa”.


Sob hipnose, solicita-se ao indivíduo que não veja um objeto que está no quarto, uma cadeira, por exemplo, e que responda como se a cadeira não estivesse presente. Quando se pede ao sujeito que caminha pelo quarto, ele não caminha atravessando a cadeira, mas anda em torno dela, evitando qualquer contato físico com ela. Em alguns casos, parece que existe uma separação entre o verbal e a conduta motora. A interpretação de Bernheim é que “em algum ponto, ele tem consciência da cadeira”.
Uma separação similar entre a conduta motora e a verbal se observa em conexão com o fenômeno de blindsight, em função do qual um indivíduo pode afirmar que não pode ver nada, contudo atua como se certa informação estivesse sendo processada. O sujeito pode funcionar melhor quando é forçado a adivinhar se um estímulo está presente ou não no escotoma (o ponto cego) de seu campo visual, e pode manifestar surpresa desse resultado, ao ter comentado inicialmente que a tarefa é impossível.
“Há dois anos”, relata Christopher Wallis, que também contou sua experiência JOTT a Barrington, “quebrei meu relógio quando pendurava uma cortina numa casa com pouca mobília. Então, deixei o relógio numa estante e fui à cozinha por alguns instantes. Quando voltei, o relógio tinha desaparecido, e não voltei a vê-lo desde então. Uns meses depois, levei um livro da biblioteca para o quarto. Quando fui deitar, pouco depois, ele tinha desaparecido, e fui obrigado a comprar outro livro. Em outra ocasião, coloquei um casaco preferido no armário do quarto, mas este também desapareceu, junto com uma jaqueta. Esses foram os incidentes mais recentes. Ao longo dos anos perdi, entre outras coisas, dois bules de chá chineses, uma pintura e uma miniatura de minha avó. Nenhuma dessas coisas era de grande valor, mas todas se esfumaçaram sem deixar rastros, e não poderiam ter sido roubadas”.

Ainda que seja incerto determinar se um fracasso perceptual é a única interpretação possível para uma experiência de JOTT, existem experiências dissociativas que também parecem ter um papel. Entende-se a dissociação como uma “ruptura das funções da consciência que normalmente estão integradas à memória, à identidade e à percepção do entorno”. Por exemplo, uma forma não patológica de dissociação amnésica pode se caracterizar, entre outras coisas, por encontrar coisas novas entre os pertences que as pessoas não se lembram de ter comprado; ou se aproximar de pessoas que saúdam o indivíduo, mas ele não pode se lembrar de onde as conhece; até experiências mais patológicas como estar em um lugar e não saber como chegou ali, ou estar com uma roupa qe não se lembra de ter vestido.
Frequentemente, esses processos mentais também parecem atribuir-se a acidentes domésticos, brincadeiras de outras pessoas, descuidos do percipiente, deslocação na evocação de uma recordação (por exemplo, determinado hábito de conduta repetitivo pode fixar na memória uma falsa recordação associada à “última vez em que o objeto foi visto”, quando na realidade foi deixado em outro local, mas esquecido), e inclusive explicações fantásticas tais como duendes aos quais se atribue o deslocamento dos objetos e a recolocação dos mesmos, no mesmo local, horas ou dias depois.
Quaisquer que sejam as interpretações – uma falha na percepção ou uma leve amnésia dissociativa – a experiência de JOTTs às vezes pode ser atribuída à alucinação “negativa”, mas ainda é um fenômeno pouco investigado na psicologia.
Para finalizar, Barrington nos concede outra curiosa experiência do sr. Wallis. “Num domingo à tarde caminhei até o parque de meu bairro, acompanhado por um amigo. Era um dia nublado, mas com um pouco de sol. De volta à casa, ouvimos o que parecia neve soltando-se do telhado de uma casa pela qual passávamos. Vimos um pedaço de gelo mole no chão e logo atravessamos a rua para ver melhor o telhado. Não conseguimos ver nada, mas logo o que parecia ser um grande pedaço de neve acertou na parte de cima de minha coxa, molhando as duas pernas. Continuamos caminhando mais uma quadra quando outro pedaço enorme acertou o lado do meu rosto, molhando completamente minha jaqueta e minha camisa. Meu amigo disse que parecia ter saído de lugar algum e parecia uma bola de neve com 15 centímetros de diâmetro. A essa altura, eu estava molhado até os ossos e bastante assustado, mas por sorte minha casa estava perto, e entramos correndo, sem explicação para aquilo que tinha acontecido”.
Barrington termina dizendo que não pode elaborar nenhuma explicação para esses acontecimentos. “Se não tivesse o amigo como apoio, esses teriam sido difíceis de acreditar, apesar da roupa molhada. Senti que tinha sido usado como uma espécie de alvo, com bolas de neve aparecendo do nada, ‘lançadas’ com precisão. Lamentavelmente, não havia outras pessoas por ali que tivessem testemunhado os eventos”.
Esta e outras experiências de JOTTs exigem uma revisão mais ampla sobre os mecanismos inseridos que ajudem a compreender como e porque operam, aplicando um modelo teórico apripriado e um programa de investigação coerente.


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