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Os Beatles e o Oriente

Autor Gilberto Schoereder
22/09/2013

A música e a atitude dos Beatles ajudaram a propagar a cultura espiritual oriental no Ocidente.


Os Beatles e o Oriente

Na segunda metade da década de 1960, a música e a atitude dos Beatles atuaram como um veículo de propagação do conhecimento religioso e místico do Oriente, especialmente entre os jovens, influenciando o desenvolvimento da chamada Nova Era.

 

Gilberto Schoereder

 

 

 

 

 

 

A influência da espiritualidade oriental na capa do disco mais conhecido dos Beatles. Entre as inúmeras personalidades, encontram-se os gurus Sri Yukteswar Giri, Sri Mahavatar Babaji, Sri Paramahansa Yogananda e Sri Lahiri Mahasaya.

É certo que não foram os Beatles que introduziram o chamado “orientalismo” na sociedade ocidental. Antes deles, muitas pessoas já vinham falando sobre o assunto. Na verdade, desde o século 19, especialmente com a formação da Sociedade Teosófica, de Helena Blavatsky. No entanto, é impossível negar ou deixar de reconhecer que o impulso dado às religiões e pensamentos orientais foi imenso depois que os Beatles começaram a falar – e tocar – sobre o assunto.
Hoje em dia, quem não viveu na segunda metade da década de 1960 não consegue ter uma ideia exata do que era a beatlemania, que atingiu não apenas a Inglaterra e os EUA, mas o planeta inteiro. Qualquer coisa que eles fizessem ou dissessem tinha um impacto formidável na sociedade, principalmente entre os jovens.
E, repentinamente, essas figuras tão populares começaram a falar de assuntos até então distantes da realidade da sociedade ocidental, como a meditação transcendental, ou as reflexões metafísicas de John Lennon na música "Tomorrow Never Knows", do álbum Revolver (1966), baseado em suas leituras de O Livro dos Mortos Tibetano.
Essa aproximação com as ideias orientais começou, ao que tudo indica, com o interesse de George Harrison pela música indiana. Segundo ele declarou, durante as filmagens do filme Help (1965), uma das cenas apresentava alguns músicos tocando música indiana num restaurante, e isso imediatamente chamou sua atenção. Harrison se apaixonou pela cítara.
Paul McCartney disse que foi na época em que estavam gravando o álbum Rubber Soul (1965) que George “virou indiano”. Harrison confirmou que chegou a “brincar” com a cítara durante as filmagens e, depois de muito ouvir falar no músico indiano Ravi Shankar, resolveu comprar um disco dele. Quando escutou, sentiu que aquela música lhe parecia familiar. “Foi mais ou menos naquela época”, declarou Harrison, “que comprei uma cítara, uma barata. Ficou lá num canto... eu não tinha decidido o que fazer com ela. Quando estávamos trabalhando em "Norwegian Wood" (música do álbum Rubber Soul), faltava alguma coisa e, pelo que me lembro, foi totalmente espontâneo. Simplesmente peguei a cítara, achei as notas e toquei. Ligamos a cítara no microfone, e deu certo, em cheio”.
Os trabalhos seguintes dos Beatles envolveram não apenas a utilização da cítara, mas principalmente a elaboração da canção "Tomorrow Never Knows", considerada uma inovação para uma banda de rock na época, uma vez que foi inteiramente composta em torno de uma única nota. Segundo Lennon declarou posteriormente a respeito da música, “(...) esse sou eu no meu período O Livro dos Mortos Tibetano”, que traz uma letra bem mais “pesada e filosófica”. McCartney disse que “(...) John tinha uma canção que era toda no acorde C (dó). Achamos a ideia perfeita, porque a música indiana é toda num acorde só”.


Já se disse que uma das inspirações para a música também foi o livro The Psychedelic Experience (1964), de Timothy Leary, mas não há dúvida de que a inspiração central foi a prática do Budismo. Tanto é assim que, segundo o produtor George Martin, quando começaram as gravações, Lennon havia dito que queria ouvir as palavras que compõem a letra, mas não a sua própria voz; ele queria que soasse como um coro de monges tibetanos.

A fase a seguir foi o envolvimento mais profundo dos músicos com a meditação transcendental de Maharishi Mahesh Yogi, graças ao interesse cada vez maior de George pela Índia. Quando os Beatles desistiram de fazer apresentações ao vivo, após o show no Candlestick Park, em São Francisco (agosto de 1966), eles “tiraram umas férias”. Lennon foi atuar no filme Como eu Ganhei a Guerra (How I Won the War); Ringo Starr juntou-se a ele posteriormente; Paul McCartney ficou compondo a trilha sonora do filme Lua de Mel ao Meio-Dia (The Family Way, 1966), com George Martin; e George Harrison foi para a Índia.
“Foi fantástico”, comentou Harrison. “Eu saía, ia olhar os templos, fazia compras. Viajei por várias partes, fui a vários lugares e acabei indo a Cachemira. Fiquei numa casa-barco no meio do Himalaia. Acordava de manhã e me traziam chá e biscoitos. Eu ouvia o Ravi (Shankar) no quarto ao lado, praticando”.
Seu envolvimento com a Índia foi tamanho que ele declarou que não gostou muito de fazer o álbum Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). “O meu coração continuava na Índia”, ele disse, completando que tudo o que aconteceu após a sua estadia no país parecia ser trabalho pesado, apenas um emprego, além do que ele estava “perdendo o interesse em ser uma celebridade, naquela época”.
Interessado em meditação e nos mantras, George ficou sabendo da visita de Maharishi à Inglaterra, e comprou ingressos para uma palestra. Os quatro foram e, após ouvirem Maharishi, foram conversar com ele, que os convidou a ir a Bangor, no País de Gales, para serem iniciados. Eles foram, e ficaram bastante impressionados com as técnicas e a simplicidade do Maharishi, mas não puderam aproveitar completamente seus ensinamentos: dois dias após chegarem, receberam a notícia da morte de seu empresário e grande amigo, Brian Epstein, e retornaram a Londres.

 

 

O Maharishi Mahesh Yogi, em 1973 (Foto: Harald Bischoff).


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O passo seguinte foi em direção à Índia, a Rishikesh, no retiro de meditação do Maharishi Mahesh Yogi, em companhia de outras celebridades da época, como o cantor e compositor Donovan, e a atriz Mia Farrow. Paul e Ringo retornaram mais cedo, enquanto Lennon e Harrison ficaram mais tempo, meditando e participando.
Muito foi dito a respeito da permanência dos Beatles em Rishikesh. Sabe-se que várias músicas do White Album (1968) foram compostas lá, e que Paul e Ringo não se sentiram muito à vontade no ambiente. Posteriormente, Lennon fez declarações contra Maharishi e chegou a compor a música "Sexy Sadie", referindo-se às inclinações sexuais exageradas do guru.
Mais tarde, alguns biógrafos dos Beatles se referiram também ao fato do Maharishi estar usando indevidamente a imagem deles para se promover, e de querer participação nos lucros do grupo.
Independentemente dessas confusões posteriores, o que importa em tudo isso é que as coisas nunca mais foram como antes no Ocidente. As religiões, filosofias e pensamentos místicos orientais penetraram na sociedade ocidental, especialmente na norte-americana, de forma definitiva, influenciando o desenvolvimento do que foi posteriormente conhecido como Nova Era.

 


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