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Mãe Maria e a Deusa-Mãe

Autor Gilberto Schoereder
22/09/2013

A imagem da Deusa-Mãe e de Mãe Maria é cada vez mais popular, resgatando mitos e culturas ancestrais que tinham sido soterradas por séculos de domínio dos deuses. Por Rosana Felipozzi e Gilberto Schoereder


Mãe Maria e a Deusa-Mãe

 

 

Hoje em dia, a imagem da Deusa-Mãe, e especificamente de Mãe Maria, é cada vez mais popular, resgatando mitos e culturas ancestrais que tinham sido soterradas por séculos de domínio dos deuses.


 

 

 

Rosana Felipozzi e Gilberto Schoereder

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Virgem dos Lírios (William-Adolphe Bouguereau, 1899).

 

Mãe Maria está indiscutivelmente ligada ao Catolicismo. No entanto, por ironia, o nome e o conceito de Mãe Maria nunca foi tão divulgado, discutido e repensado quanto na época da chamada Nova Era, o conjunto de pensamentos e atitudes de natureza mística e esotérica – para não falar das terapias alternativas – que a Igreja Católica já condenou mais de uma vez.
É provável que, na Nova Era, a ideia de Mãe Maria tenha atingido o ponto que, nos primórdios do Cristianismo, a Igreja procurava atingir: a homogeneização do conceito. Em outras palavras, o Cristianismo procurava unir, na figura de Mãe Maria, todas as demais divindades femininas e os conceitos referentes às deusas-mães das inúmeras religiões do mundo conhecido na época. Era uma forma de trazer para si os adeptos das demais religiões com o mínimo de conflito possível com as culturas locais.
Para alguns historiadores, essa tentativa de unificação teve início no Concílio de Éfeso, realizado em 431, convocado pelos imperadores Teodósio II (409-450), imperador romano do Oriente, e Valenciano III (425-455), imperador romano do Ocidente. Éfeso era o centro do culto à deusa Artêmis (ou Ártemis). Diz-se que, depois das resoluções do Concílio, todas as estátuas de Artêmis existentes na cidade ganharam uma auréola, e ela passou a ser identificada como Nossa Senhora.


Imagem de Artêmis, em Éfeso.

Processos semelhantes ocorreram por toda a Europa, estendendo-se até a Idade Média, com os deuses e, no caso, deusas pagãs sendo transformadas e homogeneizadas, principalmente na figura da Mãe Maria. Em alguns casos, essa incorporação de novas deusas não implicou em mudança das características de Mãe Maria, mas em outros momentos ela assumiu algumas das características das deusas locais, sejam aquelas relativas aos seus poderes, à sua relação com a natureza e com os seres humanos, sejam as físicas.
No entanto, na Nova Era, as deusas do mundo antigo ressurgiram com caras novas – às vezes com as caras antigas, recuperadas, quando não com características inventadas para fins de consumo – ganharam força e, ao mesmo tempo em que voltaram a se individualizar, reforçaram a imagem de Mãe Maria como representante de uma força e de uma energia que, até então, se encontrava em poder dos homens.
A partir dos anos 1960, o mundo sofreu uma chacoalhada com o movimento hippie, com a ideia de liberdade sendo levada ao extremo, como uma reação ao “quase fim” da liberdade com as ideias nazistas que levaram à II Guerra Mundial, e como reação à escalada militarista que, mais uma vez, ameaçava partir o mundo ao meio. E foi principalmente no seio desse movimento que renasceu o conceito da Mãe, ou das deusas-mães como responsáveis pela transformação necessária ao planeta, até então dominado pelos homens.
É claro que o conceito não era novo – inúmeras sociedades e grupos esotéricos e místicos já defendiam essa postura há muito tempo – mas a década de 1960 apresentou uma espécie de “caminho livre” à frente. Assim, Mãe Maria podia voltar a ser entendida de uma forma mais ampla, indo além da visão da Igreja Católica, que os chamados neopagãos sempre consideraram estreita e extremamente dogmática.
É verdade que, na Nova Era, os dogmatismos não desapareceram necessariamente, mas muitas vezes apenas ganharam nova roupagem, servindo a outros interesses. Pelo menos, o movimento ajudou a disseminar alguns conceitos que, até então, se encontravam restritos a círculos acadêmicos. É assim que, cada vez mais, se passou a falar dos estudos de Sir James George Frazer (1854-1941), com seu O Ramo de Ouro (1922), e das obras de Joseph Campbell (1904-1987), um dos mais respeitados mitólogos do mundo.

A nova maneira de encarar deuses e deusas de nosso passado levou inúmeros pesquisadores e estudiosos, das mais diversas áreas, a desenvolver estudos – não só como pesquisa histórica, mas como um profundo entendimento das questões espirituais e psíquicas em torno do tema Mãe Maria e deusas-mães.
Mas foi especialmente a partir dos trabalhos de Campbell que surgiram as discussões mais interessantes a esse respeito, chamando a atenção do mundo moderno para a importância de certos mitos e imagens que acompanham a humanidade ao longo de sua história.
Seu livro mais popular certamente é O Poder do Mito (Palas Athena Ed./ Martin Claret Ed.) – na verdade, um livro baseado num documentário da televisão, apresentado pelo próprio Campbell e pelo jornalista Bill Moyers – que esclarece muitas questões ligadas à religiosidade e espiritualidade em torno dos mitos e dos deuses de cada cultura do planeta.
Nesse livro, Campbell diz que todas as imagens religiosas e mitológicas se referem a planos de consciência ou de experiência que existem potencialmente no espírito humano. Essas imagens evocam atitudes e experiências propícias à meditação sobre o mistério da origem espiritual das pessoas. Segundo ele, houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte.
A Deusa pode ser entendida como campo que produz formas, o que significa dizer, procurar a fonte da sua própria vida, a relação entre o seu corpo, enquanto forma física, e a energia que o anima. Para Campbell, um corpo sem energia não está vivo, mas também não se pode dissociar, na própria vida, o que é do corpo daquilo que é energia e consciência.
Ele afirma que a mitologia é uma sublimação da imagem da mãe e exemplifica com os símbolos mitológicos existentes na Índia, onde os símbolos supremos mais comuns são o falo, ou lingam, e yoni, a vagina, nomes dados ao Deus e à Deusa. “Ao contemplar esses símbolos, contempla-se o momento gerador toda a vida”, diz Cambpell.
Todo o mistério da geração da vida pode ser simbolicamente contemplado nesse símbolo, mas isso ocorre na Índia, embora em quase todo o mundo o mistério sexual seja sagrado, representando o mistério do despertar da energia da vida, dos poderes masculinos e femininos em conjugação criativa.

 

 

Estátua da deusa-mãe encontrada em Çatal Hüyük, com idade estimada de 7 mil anos.

 

Com relação à questão da Deusa-Mãe, Campbell observa que, em termos históricos, ela reinou ao longo de todo o vale dos rios Indo e Ganges, na Índia, do mar Egeu ao vale do Indo, e vai ser integrada aos indo-europeus, descendo do norte em direção à Pérsia, Índia, Grécia e Itália, onde a mitologia já assume uma orientação masculina.
Porém, essas histórias mitológicas que estão relacionadas às revelações da grande Deusa- mãe do universo e de todos nós, nos ensinam efetivamente a compaixão por todos os seres vivos como sendo o caminho da vida espiritual.
Quanto à história das religiões ocidentais, o mitólogo aponta que, no Velho Testamento, foi um Deus que criou o mundo, sem a presença de uma Deusa. Mas nos provérbios, é Sofia, a Deusa da sabedoria, quem diz: “Quando Ele criou o mundo, eu lá estava e era a sua grande alegria”.

 

 

 

Busto encontrado nas ruínas de Mohenjo-Daro, no Paquistão. A obra é considerada por alguns arqueólogos como uma representação da deusa-mãe dos povos do vale do Indo.


 

 

 

 

 

Cambpell também cita o Concílio de Éfeso como um momento histórico, no qual foi proclamada a divindade de Maria, apesar de que esse argumento tenha surgido na Igreja algum tempo antes. Ele diz que, no momento em que o Concílio estava reunido, discutindo a divindade de Maria, entre outras questões, o povo permanecia aglomerado ao redor do templo e começou a gritar em sua reverência: “A Deusa, a Deusa”. “Ela certamente é a Deusa”, confirma Campbell.
O que de fato ocorreu a partir da tradição católica foi a fusão do conceito hebraico patriarcal e monoteístico do Messias, como o destinado a unir os poderes espiritual e temporal, e a ideia clássica, helenística, do Salvador como o filho da grande Deusa, morto e ressuscitado através do nascimento virginal.
Segundo Campbell, há uma quantidade de histórias sobre esses salvadores renascidos. No Oriente Próximo, por exemplo, a divindade que desceu ao “campo do tempo” era, originariamente, uma deusa. Jesus assumiu o que é, na verdade, o papel de uma deusa, no sentido de descer até nós encarnando a compaixão, enquanto Maria, a virgem, aquiesce em ser o receptáculo dessa encarnação, o que confere a ela a própria redenção.

Também chama a atenção a popularidade das chamadas “mensagens de Maria”. Além da norte-americana Annie Kirkwood, no Brasil também algumas pessoas têm se referido ao assunto.
O pesquisador e estudioso das questões espirituais, Jan Val Ellan, pseudônimo de Rogério de Almeida Freitas, dedicou um capítulo de seu livro Nos Bastidores da Luz (Editora do Conhecimento) ao tema. Nesse caso, não se trata de uma mensagem “direta” de Mãe Maria, mas tem autoria espiritual de Francisco de Paula, “um amigo espiritual”, explica Ellan, “considerado santo na Igreja Católica. Meu primeiro contato com Mãe Maria foi através dele”. Mas ele também se refere a outros contatos, inclusive algumas ocasiões em que, durante o sono do corpo físico, ele vai a ambientes espirituais em que Maria está presente.
Segundo Ellan, Maria só pôde entender a amplitude de sua tarefa após seu espírito ter desencarnado, ainda que ela tenha sido uma das quatro personagens – ao lado de José de Arimatéia, Lucas e Estevão – a perceber com lucidez o significado da vinda de Jesus à Terra. “Mais do que qualquer um”, ele explica, “Maria sabia, desde o processo de inseminação artificial cósmica pelo qual passou, que seu filho não era uma criança comum. É uma pena que a tarefa de mãe da humanidade dada por Jesus a ela, numa atitude de amor, tenha sido expressada através de uma veia religiosa”.
Ele diz, ainda, que a missão verdadeira de Maria tinha uma simplicidade que foi desvinculada pelo segmento religioso católico. “É interessante lembrarmos”, diz Jan Val, “que existem duas religiões depois de Cristo. O Cristianismo, que durou até o ano de 325, com a fase crítica entre 325 e 388, e o Catolicismo”. Segundo ele, é necessário refletir em termos de período histórico e religioso para termos uma noção mais precisa do porquê de, hoje, não sabermos quase nada sobre Maria, historicamente.
“Algum tempo após a morte de Jesus”, ele conta, “diversos grupos começaram a disputar o legado filosófico deixado por ele. Havia o grupo dos apóstolos, dos discípulos e o grupo de Paulo. Esses três grupos ficaram discutindo entre si questões como sair ou não pregando a mensagem deixada por Jesus”.
Assim, por medo, os apóstolos não saíam pregando como os outros grupos e, quase que devido a essas mínimas resoluções, a questão universalista não se tornou mais uma mera seita judaica, como as já existentes seitas dos saduceus, fariseus, essênios e zelotas. Foi então que Estevão, o maior representante do grupo que pertencia a Paulo, praticamente arrancou a primazia dos apóstolos, e saiu pregando a mensagem de Jesus pelo mundo.
“O fato é que, depois de um tempo, percebendo o equívoco, os apóstolos seguiram o caminho de Paulo. Sabe-se, além disso, que, por volta do ano 325, existiam quatro mil evangelhos, segundo informam alguns historiadores. Um grupo de estudiosos reduziu esse número para 80 evangelhos, numa tentativa de unificar o conhecimento adquirido”. Nos evangelhos que não foram aceitos, e chamados de apócrifos, é que se encontram as informações sobre Maria.
Para Ellan, isso significa que se pode dizer que a missão de Maria só foi reconhecida no Concílio de Niceia, e detalhes de sua vida foram ocultados e até mesmo distorcidos na passagem do Cristianismo para o Catolicismo.
“A verdadeira missão planetária desse ser de luz”, complementa Ellan, “tem sido a de cumprir o pedido feito por seu amado filho e, para isso, teve de se agigantar ainda mais para, no papel de mãe da humanidade, poder atingir a todos os seus filhos e filhas, encarnados e desencarnados”.
“Com seu amor de mãe, ela e uma falange de espíritos têm trabalhado incessantemente para fazer chegar a luz às almas mais necessitadas, inclusive e principalmente nos níveis mais profundos dos umbrais”, ele diz. “Se o mundo soubesse algumas coisas que Maria tem feito nesses milênios, ficaria muito surpreso”.

Para Conhecer a Deusa-Mãe
Várias obras a respeito da deusa-Mãe – e também mais especificamente sobre Mãe Maria – foram publicadas no Brasil. Elas podem ajudar muito quem quiser descobrir e se aprofundar nos mais variados aspectos do tema.
Os livros de Annie Kirkwood, por exemplo, têm encontrado boa repercussão entre os leitores, apresentando mensagens de Maria que, segundo a autora, ela começou a receber mentalmente a partir dos anos 1980. É assim com Mensagens de Maria Para o Mundo, Mensagens de Maria Para Sua Família, Instruções de Maria e Novas Mensagens de Maria, todos da Editora Nova Era, que também publicou Aparições de Maria, de Isidro-Juan Palacios.
Kirkwood diz que sua vida mudou quando, em 1986, descobriu o livro The God-Mind Connection (A Conexão com a Mente de Deus), de Jean K. Foster, que lhe revelou a forma de canalizar mensagens espirituais atribuídas a Maria.
A Editora Mercuryo também publicou dois livros muito interessantes: Mãe – A História de Maria, de Julia Bárány; e Evangelho Secreto da Virgem Maria, de Santiago Martin. O primeiro livro se refere a dois textos apócrifos: o Evangelho de Tiago – que é considerada a fonte tradicional de informações sobre o nascimento, infância e gravidez de Maria – e A Passagem da Virgem Maria, de João, o teólogo. O segundo é um manuscrito raro, escrito por volta do ano 400, trazendo uma espécie de diário de Maria a partir de seus 15 anos.
Cláudio Crow Quintino publicou A Religião da Grande Deusa – Raízes Históricas e Sementes Filosóficas (Gaia Editora), no qual apresenta a “religião da deusa” como a primeira manifestação do homem em busca do divino e como a opção ideal para quem busca o crescimento nos três planos de existência – físico, mental e espiritual.
No que diz respeito às deusas das tradições africanas, transportadas para a América, um dos trabalhos mais aclamados é o de Judith Gleason, Oya – Um Louvor à Deusa Africana (1987, Editora Bertrand Brasil). Ela fez muitas viagens para a África, Caribe e Brasil para pesquisar as tradições do povo iorubá, e combina arte, poesia e lendas, centrando-se em Oya, uma das deusas africanas mais importantes no que se refere ao simbolismo feminino.
No aspecto da psicologia, foi lançado no Brasil O Retorno da Deusa, de Edward C. Whitmont (Summus Ed.), seguindo o ponto de vista junguiano e fazendo referência ao que o autor chama de um acontecimento psíquico de nossa era: a recuperação dos aspectos femininos da pessoa.
A Deusa Interior, dos psicólogos Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger (Ed. Cultrix), se refere ao conceito de que as deusas simbolizam características encontradas individualmente nas mulheres, levando em consideração que a ideia do feminino cumpriu um papel importante na mitologia e religiões antigas. O livro é apresentado como um guia sobre as qualidades das deusas que vivem dentro de nós, baseado numa pesquisa realizada pelos autores durante 10 anos.
Outro livro de Joseph Campbel, Todos os Nomes da Deusa (Ed. Rosa dos Tempos), estuda as histórias primitivas sobre a Criação, aquelas que falam sobre uma Grande Mãe doadora e nutridora da vida.
Outra obra considerada fundamental sobre o tema é A Deusa Branca – Uma Gramática do Mito Poético (Ed. Bertrand Brasil), escrito por Robert Graves em 1948. Não só é visto como uma obra importante para a teoria da literatura, mas também para a história das religiões e para os que se interessam pelo chamado “renascimento” da religião da deusa e pela Wicca.

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