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Detetive de Milagres

Autor Gilberto Schoereder
22/05/2012

O jornalista Randall Sullivan fala sobre sua experiência em Medjugorje, na Bósnia, que é centro de aparições de Nossa Senhora.


Detetive de Milagres

O jornalista Randall Sullivan fala sobre sua experiência em Medjugorje, na Bósnia, que é centro de aparições de Nossa Senhora.

Gilberto Schoereder

 





Turistas e fiéis em Podbrdo, Medjugorje (Foto: Tapiros/ Wikipedia).

Poucos temas despertam tanto a atenção dos fiéis católicos – e até de não católicos – quanto as aparições marianas. Foi e é assim com Fátima, Lourdes e Guadalupe – já devidamente aceitas e reconhecidas pela Igreja, e que atraem milhões de peregrinos todos os anos – e continua sendo com a menos conhecida vila de Medjugorje, na Bósnia.
Como não podia deixar de ser, os eventos e fenômenos verificados no vilarejo despertaram a atenção da Igreja, de fiéis, de cientistas e céticos de todo o mundo, com consequências que, às vezes, podem ser considerados até mesmo surpreendentes. E, é claro, abriram uma discussão que parece interminável entre aqueles que entendem que as aparições são verdadeiras e aqueles que as atribuem a fraude ou a alguma outra causa, como problemas mentais dos envolvidos.
O jornalista Randall Sullivan, conhecido por seu trabalho junto à mundialmente famosa revista Rolling Stone, foi definitivamente tocado pelos eventos envolvendo as aparições de Nossa Senhora em Medjugorje. Sua estadia na cidade mudou sua forma de encarar a vida e a fé, especialmente após a experiência religiosa que ele viveu no alto da chamada Montanha da Cruz, ou Krizevac.
O resultado de suas investigações sobre as aparições marianas está no livro Detetive de Milagres (publicado em 2005 pela Editora Objetiva). Na época da publicação do livro no Brasil, nós o entrevistamos por e-mail para que ele falasse sobre suas impressões sobre as aparições da Virgem Maria, que já estão entre as mais longas da história.
As aparições começaram em junho de 1981, quando as jovens Mirjana Dragicevic, de 16 anos, e Ivanka Ivankovic, de 15 anos, estavam passeando na região do monte Podbrdo. Ivanka parou de repente e começou a gritar: “Olhe! A Nossa Senhora”. Mirjana não viu a aparição e fez a amiga seguir em frente. Encontraram uma jovem pastora, Milka Pavlovic, de 13 anos, que seguiu com elas. Na base do monte, mais uma vez Ivanka viu a aparição luminosa e, dessa vez, suas amigas também a viram. Outra jovem de 16 anos, Vicka Ivankovic, juntou-se a elas e, posteriormente, também teve a visão, assim como os jovens Ivan Dragicevic e Ivan Ivankovic.
Em 1983, Mirjana anunciou que a Virgem tinha lhe passado dez “segredos” que descreviam uma série de acontecimentos que resultariam no fim do mundo. Desde então, Medjugorje se tornou o centro das atenções de milhões de pessoas, crentes ou não.
O livro de Randall Sullivan não só relata suas experiências pessoais, mas ainda faz um levantamento completo dos acontecimentos envolvendo as aparições, e também do cenário histórico da região e dos eventos de um dos momentos mais conturbados da história moderna.

O que o levou a pesquisar o tema das aparições divinas? Parece ser um longo caminho da Rolling Stone para esse assunto.
Foi mesmo uma jornada considerável da Rolling Stone até o tema das aparições marianas, ainda que existam algumas conexões. Eu estava na Bósnia como correspondente de guerra para a revista, o que abriu as portas para mim, até mesmo em Medjugorje. De qualquer maneira, fui à busca desse assunto por uma série de experiências pessoais que me afetaram, ao mesmo tempo, de modo profundo e inexplicável. Eu só posso dizer que a sensação era de que alguma força – interna ou externa, não sei dizer qual – estava me compelindo a seguir nessa direção e, a partir de determinado ponto, parei de resistir a essa força e me deixei guiar. Foi a única forma de eu encontrar alguma paz.
Não era só o meu trabalho na Rolling Stone e minha reputação como um símbolo cultural nos Estados Unidos que me tornavam um candidato improvável para essa aventura. Cresci numa família francamente não religiosa, em que as pessoas de fé eram abertamente motivo de zombaria. Meus pais e irmãos pensaram que eu tinha perdido o juízo quando tentei dizer-lhes o que eu estava pretendendo.

Em suas investigações sobre os fenômenos, você percebeu a existência de uma distância muito grande ou nítida entre o ponto de vista da Igreja e o dos cientistas?
A Igreja Católica, provavelmente, tem mais respeito pelo ponto de vista científico do que qualquer outra congregação cristã. Dito isso, os pesquisadores do Vaticano sabem que tudo o que a ciência pode fazer é nos dizer quais “não são” os fenômenos como aqueles verificados em Medjugorje. Os cientistas podem eliminar várias teorias sobre esses eventos, mas não nos podem oferecer qualquer explicação sobre o que está acontecendo que não seja absurdamente reducionista. Os cientistas brilhantes reconhecem isso; os medíocres, não.
O que aconteceu em Medjugorje não foi fraude ou ilusão, disso estou certo. Os videntes de lá foram submetidos a mais testes científicos do que qualquer místico religioso na história da raça humana, e virtualmente todos os resultados confirmaram que algo de natureza extraordinária aconteceu com eles durante suas visões.
A ciência não pode ir além disso, e a própria Igreja está relutante em se aventurar. No final das contas, o que a Igreja faz é esperar para ver o que os resultados – ou os frutos, como os padres gostam de chamá-los – são, após um longo período de tempo.

Imagem de Nossa Senhora, em Medjugorje (Foto: Ante Perkovic).

Várias pessoas, em todo o mundo, se referem às aparições, e mais especificamente às de Nossa Senhora, como fenômenos paranormais. Em algum momento de sua pesquisa alguém chegou a tocar nesse ponto?
É claro que várias teorias sobre o paranormal foram sugeridas. Entretanto, é tudo o que elas são: teorias. O “paranormal” é um conceito nebuloso. Tudo o que realmente descreve são eventos e experiências que vão além das explicações científicas disponíveis. O que separa o paranormal do sobrenatural é desconhecido. Se você chega a acreditar – como eu acredito – que a própria mente humana é uma entidade sobrenatural, essas distinções são irrelevantes. Justamente por isso, eu acredito que é importante, para aqueles que se inclinam a acreditar, ter em mente que sempre existe um elemento psicológico – ou parapsicológico – ligado a esses eventos, e que nenhum de nós tem a capacidade de dizer a importância desses elementos nos eventos. Pessoalmente, estou convencido de que a influência da psicologia humana nesses fenômenos aumenta com o tempo; o que pode ser totalmente puro, no início, com a passagem dos dias, semanas e meses fica mais confuso, com a interferência humana.

De que forma as investigações do Vaticano são realizadas? Como uma aparição é confirmada ou não pela Igreja? Por que algumas são tão exacerbadas, como as de Lourdes e Fátima, e outras deixadas em segundo plano? Já se disse, a respeito de Fátima, por exemplo, que tudo o que ocorreu lá e que não “cabia” no Catolicismo foi apagado pelo Vaticano. Você entende que a política tem papel importante na forma como as aparições são vistas pela Igreja?
Geralmente, a Igreja encoraja as autoridades locais – seus padres das paróquias e seus bispos – a conduzir as investigações de aparições e outras “revelações confidenciais”, como são chamadas no Vaticano. Evidentemente, isso pode resultar em decisões sujeitas aos preconceitos e, até mesmo, interesses egoístas das pessoas que dirigem a diocese. Dito isso, deve-se notar que a grande maioria dos fenômenos relatados é rejeitada pela Igreja sob a alegação de que são fraudes ou decorrem de problemas mentais. E mesmo em muitos casos em relação aos quais a Igreja decide que um evento autêntico ocorreu, toma-se a decisão de que qualquer que seja a revelação, ela se dirigia unicamente à pessoa que a recebeu, e não à Igreja como um todo. Existem poucas exceções: Lourdes, Fátima e Guadalupe são, de fato, as únicas que a Santa Sé aceitou. No entanto, existem ocasiões em que o Vaticano determina que a inclinação do bispo local distorceu ou está distorcendo a investigação, e tira da diocese a autoridade para aprovar ou desaprovar uma aparição.
Medjugorje, na Bósnia, e Garabandal, na Espanha, são dois exemplos modernos de uma interferência da Santa Sé. O Vaticano considera a ortodoxia teológica um princípio fundamental para aprovar uma aparição. E existe uma tendência a rejeitar o que não se adapta às doutrinas da fé. Entretanto, até onde posso afirmar, nada é encoberto. Eu dou crédito à Igreja pelo fato dela esclarecer todos os fatos e circunstâncias envolvendo eventos como esses, não importa o quanto eles pareçam confusos. E incluo Fátima nessa declaração. A política pode muito bem influenciar o processo pelo qual se considera uma revelação como sendo confidencial, mas não influencia a decisão em si. E a Igreja tem se mostrado propensa a mudar uma decisão com base em novas evidências. O processo pelo qual as visões da “Divina Misericórdia”, da Irmã Faustina, foram da condenação, nos anos 1930, a dogma, pelo final do século 20, é o melhor exemplo que eu conheço dessa situação.

Grande parte de suas investigações se concentrou em Medjugorje, na atual Bósnia e Herzegovina, antiga Iugoslávia. O que existe ou existia lá de diferente de outros locais em que ocorreram aparições da Virgem? Como o Vaticano se pronunciou a respeito do ocorrido?
O que distingue Medjugorje é a magnitude dos efeitos observáveis. Muitas pessoas, de muitos pontos de vista, testemunharam-nos, durante um longo período de tempo. Eu não tenho conhecimento de qualquer outro evento que tenha feito com que toda a população local, virtualmente sem exceções, experimentasse uma conversão religiosa de tamanha intensidade e duração.
Como disse antes, Medjugorje foi submetida a mais investigações científicas do que qualquer outro evento sobrenatural relatado, e todos os grupos de cientistas de todo mundo que visitaram o local, concluíram que algo de extraordinário e inexplicável ocorreu. É profundamente comovente conversar com os cientistas – muitos dos quais chegaram a Medjugorje como ateus – que se converteram ao Catolicismo durante o processo de suas investigações.

Você escreveu que não conhecia muito sobre o assunto antes de começar sua jornada e que até era cético com relação a alguns aspectos envolvendo o tema. Qual é a sua postura após o término de sua investigação? Alguma coisa mudou? Você escreveu que a ideia de Jung a respeito do tema não foi suficiente para você? Você conseguiu encontrar uma resposta ou ter seus anseios de conhecimento sobre o assunto satisfeitos? Você chegou a uma conclusão sobre o que realmente aconteceu com você no alto da montanha em Medjugorje?
Eu não só era totalmente cético como desconhecia o assunto quando comecei meu projeto. Meu ceticismo se dissolveu até mais rapidamente do que meu desconhecimento. No final, quando perguntado a respeito de Medjugorje, eu tinha que repetir a mesma resposta dos cientistas: algo muito extraordinário e profundo está acontecendo aqui, mas eu não sei exatamente o que é.
Essa é a resposta da minha cabeça. A resposta no meu coração é que se trata da obra do Espírito Santo e que eu tenho de ter fé nisso. Eu vivo tanto da minha cabeça quanto de minha fé, de modo que não posso rejeitar minhas dúvidas, mesmo que eu abrace minha fé. A aceitação disso e a compreensão de que não é a questão de ser uma coisa ou outra, me permitiu viver em paz com minhas experiências em Medjugorje e em outros locais que visitei durante meu trabalho no livro Detetive de Milagres.
Minha experiência no alto da montanha em Medjugorje permanece, para mim, como a mais importante e mais desconcertante da minha vida. Intelectualmente, eu a desafiei de todos os ângulos possíveis – até mesmo admitindo a possibilidade de que se tinha tratado de algum tipo de alucinação – e nunca aceitei ou rejeitei qualquer possível explicação. Entretanto, bem lá no fundo, eu continuo a acreditar que não apenas foi real, mas foi a maior bênção de minha vida.



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